“Discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo.” A frase, atribuída a Voltaire pela escritora Evelyn Beatrice Hall, sintetiza um paradoxo que está no coração da democracia: defender o direito de quem pensa diferente é obrigação de quem tem compromisso democrático.
Vivemos um tempo em que falar em polarização virou quase um clichê, mas há uma distinção que raramente fazemos com o rigor que ela merece. A polarização ideológica, aquela em que as pessoas divergem sobre ideias e projetos de sociedade é, em alguma medida, saudável. Afinal, sem ela, a dissidência seria apagada. O verdadeiro problema está na polarização afetiva, aquela que recai sobre quem o outro é – e não sobre o que ele pensa. Quando chegamos ao ápice desse segundo tipo, deixamos de debater adversários e passamos a sentir aversão a “inimigos”.
É dessa aversão que nasce um fenômeno perigoso, a captura ideológica dos próprios valores democráticos. Liberdade de expressão vira pauta de um campo, enquanto pluralismo e igualdade viram bandeira de outro. Nesse processo, perdemos algo que pertence à democracia: os valores democráticos, que são as condições de possibilidade de qualquer disputa legítima, e não instrumentos dela.
Aristóteles já havia percebido isso na Grécia Antiga. Em sua teoria dos regimes políticos, ele distinguia a politeia – cidadãos deliberando em busca do bem comum orientados por valores compartilhados – de uma democracia degenerada, movida apenas por interesses individuais em conflito. O que hoje chamamos de democracia saudável é, em grande medida, o que ele entendia por politeia, a existência de um terreno comum sobre o qual o conflito pode ocorrer sem destruir a convivência.
Esse terreno comum é pautado em valores que pertencem à democracia, e não a nenhum campo político específico. O pluralismo reconhece que diferentes vivências e perspectivas têm direito de existir, a liberdade de expressão garante que cada uma delas possa ser dita, e o diálogo aposta que, colocadas em confronto no espaço público, essas ideias podem nos aproximar do melhor caminho para o bem comum e para o florescimento de cada indivíduo.
Mas a politeia não se sustenta apenas por valores declarados. Para Aristóteles, a virtude se aprende pelo exercício, e o mesmo vale para a democracia. Defender o terreno comum exige honestidade intelectual para reconhecer quando o adversário tem razão, coragem para defender quem discorda, e o que os gregos chamavam de amizade cívica, o vínculo que une cidadãos não pela afinidade, mas pelo compromisso com a vida em comum. E é justamente esse compromisso que é posto à prova quando o dissenso incomoda.
Parece contraintuitivo defender discursos que nos incomodam ou vozes que consideramos equivocadas. Mas é exatamente aí que está o teste: estamos exercendo uma verdadeira democracia? Afinal, ela é o único regime político que admite o dissenso. O autoritarismo começa, quase sempre, pela convicção de que certas vozes não merecem ser ouvidas, ou que são perigosas demais para o debate público — e a censura raramente permanece no alvo original.
Tolerar a dissidência significa reconhecer que, se o debate público levou a uma conclusão diferente da nossa, esse resultado também é legítimo, que mudar de opinião é possível, e que o outro, mesmo pensando de forma radicalmente distinta, tem o mesmo direito de participar da conversa sobre que sociedade queremos construir.
Defender a democracia é, principalmente, sustentar que a pluralidade é a condição da qual partimos, e defender incansavelmente os que pensam diferente de nós.
Por Fernanda Trompczynski e Jamil Assis | Instituto Sivis


