A menor abstenção em um segundo turno desde 2006 mostra que a eleição foi decidida entre os eleitores que a campanha de Flávio deixou de procurar
A direita procura explicações para a derrota na eleição presidencial, e não faltam candidatas: o engajamento da esquerda nas redes, a insistência de Jair Bolsonaro em um sucessor da própria família, a lembrança do governo do pai ou a intervenção do Judiciário. Mas há outra, menos confortável para o bolsonarismo: a liderança no 1º turno levou a campanha a falar para quem já a apoiava, com tom de vitória, enquanto o governo, acuado, foi buscar quem havia ficado em casa.
A eleição não parece ter sido decidida por uma guerra de costumes, como em 2018, nem só pela economia: assim como Biden, Lula defendeu os números do governo sem colher aprovação ao longo do mandato. Mas, ao contrário dos democratas americanos, manteve-se no poder.
O dia seguinte ao 1º turno parecia de terra arrasada para o Planalto. Flávio terminou à frente de Lula, e a estratégia da direita de priorizar o Congresso rendeu uma supermaioria que esvaziou o poder da esquerda e, surpreendentemente, reduziu o espaço do Centrão. Entre os senadores eleitos, falou-se abertamente em impeachments de ministros do STF.
A confiança da campanha cresceu na mesma medida. Na noite da apuração, Flávio agradeceu aos brasileiros que lhe deram “esse voto de confiança, para a mudança” e decretou “o fim da era do PT”. Com aquele resultado, era difícil discordar do diagnóstico.
Mas o 2º turno trouxe outro cenário, e outros eleitores. O 1º turno tivera a maior abstenção desde 1998. No dia 25, o comparecimento subiu quase dois pontos, e a abstenção caiu para 19,2%, a menor em um segundo turno em 20 anos. A campanha de Lula fez da mobilização de quem não votou uma prioridade e virou uma disputa em que chegou à véspera numericamente atrás nas principais pesquisas.
Do outro lado, o conforto da liderança alimentou a rejeição. Dois dias após o 1º turno, Flávio falou em usar a maioria no Congresso para “mudar a Constituição”. Depois, defendeu que o fim da reeleição valesse já para o seu mandato, deixando aberta a possibilidade de estendê-lo para cinco anos. Ainda que tenha prometido não concorrer em 2030, a ideia de redesenhar as regras antes de vencer reacendeu o temor pela democracia que pesou em 2022.
Os debates foram na mesma direção. O tom provocador na Band, fruto da “marçalização” da campanha, pode até engajar nas redes, mas fala com um público que Flávio já tinha. O ajuste para a Globo prometia um candidato mais presidencial, mas o “nove dedos” e os comentários sobre a idade de Lula reforçaram a imagem de arrogância justamente diante de quem ainda decidia.
A disputa não estava no eleitor convicto, e sim nos muitos que não votaram em 4 de outubro. O governo, derrotado no 1º turno, entendeu isso antes. O favorito, não.
Parece paradoxal, mas Flávio perdeu porque começou vencendo. Ele já disse ser impossível reconhecer o resultado. Quando a poeira baixar, porém, a leitura errada do Brasil no 2º turno será uma responsabilidade que só a sua campanha pode assumir.
Texto reproduzido de O Globo. Leia a publicação original.
João Gabriel Archegas | Pesquisador no Instituto Sivis


